Não deixe


Publicado em 08/11/2018 Atualizado em 08/11/2018 09:08

No primeiro mês, é um tom um pouco acima do normal, é uma grosseria eventual, mas não vê perigo nenhum, afinal você o ama.


No segundo mês, ele aponta o dedo na sua cara, com os olhos esbugalhados e as veias saltando, parece uma outra pessoa, não o reconhece, porém releva, perdoa a desavença, acredita que é unicamente excesso de preocupação, excesso de trabalho.

No terceiro mês, ele lhe proíbe de sair de vestido curto, você pensa que é brincadeira, só que não, ele lhe desafora para a plateia dos vizinhos. Você desiste de se encontrar com as amigas e acha que é somente uma má fase da relação.

No quarto mês, ele não aceita ouvir a sua opinião, segura o seu braço com força e lhe ameaça:

- Não ouse me responder!

Você está encurralada num canto, na teia do cuspe dele, no hálito acentuado dele, mas releva, os ajustes e brigas são naturais para quem se ama, a possessividade é compreensível por quem se deseja, busca se convencer disso.
 

No quinto mês, já são uivos, já são socos na mesa, você responde que ele não é seu dono, e ele corre enlouquecido atrás. Você se tranca no banheiro. Ele esmurra a porta. Você chora deitada num canto e espera a raiva dele passar para abandonar o esconderijo, vem o cansaço e o sono e esquece de contar para a família o que aconteceu.

No sexto mês, ele questiona alguma foto que publicou no Facebook, se aquilo são modos de mulher casada, você não enxerga mal nenhum, ele lhe empurra com força e você bate a cabeça no chão. A testa sangra, mas entende aquilo como um acidente e não leva a queixa adiante. No emprego explica que caiu da escada.

No sétimo mês, ele chega em casa tarde, bêbado, e lhe força a ter relações sexuais, você não quer, mas se cala novamente pelo amor que um dia já guardou por ele.

No oitavo mês, ele começa a fazer piadas machistas a seu respeito na frente das visitas, zombando que tem que mais que obedecê-lo, todo mundo ri, menos você, que vai tirar satisfação a sós. É neste momento, do nada, que ele dá um soco em seu rosto. Você cai e ele ainda chuta a sua barriga, o ventre do filho possível, o ventre do sonhado filho, mas você já está muito sozinha para ser socorrida, com muito medo para se levantar, com a estima muito baixa para virar as costas e fazer as malas.

No nono mês, você nem sente mais que está mentindo porque não existe mais nenhuma verdade em sua vida. Silencia-se por dentro, evita passear, evita as chamadas dos colegas, evita o contato nos olhos. Tenta apenas não morrer. Você não o ama mais, mas também não se ama mais e é tarde para pedir ajuda.

Autor: Fabrício Carpinejar

 

ArautoFM




RADIO ARAUTO FM - VERA CRUZ
(51) 3718-3800 (estúdio)
(51) 3718-3400 (comercial)
Rua Jacob Blész, 38 - Vera Cruz - RS
Caixa Postal 58 - CEP: 96880-000
RADIO ARAUTO FM - SANTA CRUZ DO SUL
(51) 2109-0066 (recepção)
Rua Venâncio Aires, esq. Galvão Costa, nº 5
Santa Cruz do Sul - CEP: 96810-204
Copyright © 2017 Rádio Arauto FM - www.arautofm.com.br