Quarto cheio


Publicado em 12/04/2018 Atualizado em 12/04/2018 08:54

Adoro aquela história dos dois filhos, um pessimista e o outro otimista, cujos pais resolveram fazer um experimento. Encheram o quarto do filho pessimista de brinquedos, os melhores e mais caros jogos e bonecos e carrinhos; no quarto do filho otimista colocaram um monte de bosta de cavalo. Quando chegou o filho pessimista, olhou todos aqueles brinquedos e começou a chorar. Não queria abri-los pois tinha certeza que iria quebrá-los. Já o otimistinha, chegando em casa, correu para o quarto. Voltou em alguns segundos, com sorriso no rosto. Olhou para os pais e perguntou: “Cadê o pônei?”.

Minha filha de quatro anos é a pessoa mais otimista que eu conheço. Ela pode não ser a menina mais bonita da sala, nem a mais inteligente, ela usa a tesoura com a boca aberta e não consegue jogar uma bola de vôlei pra cima e agarrá-la novamente, mas é otimista e deslumbrada e feliz com tudo o que está acontecendo ao seu redor. É o que ela sabe fazer, o que a diferencia. Fui vê-la na aula de natação esses dias: ela não dá saltos bonitos; é a única que ainda não consegue mergulhar sem colocar a mão no nariz; é lenta ao atravessar a piscina, sempre chegando entre os últimos. No fim da aula abraçou o professor e disse: “natação é muito legal! Acho que hoje dei show!”. O professor sorriu. No final da aula, abraçou todos os professores e alguns coleguinhas, que tentavam escapar do apertão.

Perguntamos o que ela gostaria de ganhar no Natal. “Qualquer coisa. Eu gosto de tudo”, ela disse. E disse isso sinceramente, porque realmente gosta de tudo, agradece por tudo, todos os dias abraça as pessoas e os dias. Divide seu lanche com os amigos - às vezes, com desafetos. Acredita que alguém violento pode se tornar uma pessoa boa e calma. Acorda sorrindo todos os dias, não entendo como. Não herdou meu mau humor matutino. Não herdou meu olhar desconfiado, meu pessimismo. Me ajuda, todos os dias, a ver o mundo de forma mais positiva.

Estar ao lado dela me dá até confiança em um mundo melhor.

Me torna mais alegre e esperançoso.

O pessimista torce contra essa alegria toda. Ele diz: "É melhor preparar essa menina para o lado duro da vida". Mas acredito que não. Acredito que nós, adultos, já lidamos com o lado duro da vida o tempo todo. Somos, na imensa maioria, um amontoado de promessas que não se concretizaram. Éramos astronautas, bailarinas, jogadores de futebol. Tornamo-nos assalariados, pagadores de contas, burocratas, esperando o pior para os outros, talvez para nós mesmos. Com a minha filha, eu aprendo todos os dias que posso estar sentado, chorando a dureza da vida, com um quarto cheio de presentes esperando para serem abertos.

Autor: Marcos Piangers

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